um forte abraço

Era um domingo de céu tão azul quanto despreocupado. O inverso de nós todas.

O encontro foi marcado às pressas. A urgência era o sentimento predominante daqueles dias. A gente sentia que tinha de fazer algo, rápido, senão. Bom, o resto da história vocês já sabem. Está aí, na capa dos jornais, em cada manchete. No olhar desolado dos anônimos que tropeçam uns nos outros nas ruas, à procura de emprego. No prato vazio da família que volta a passar fome. Na disparada da criminalidade e na quantidade de mulheres, homens, meninas e meninos oferecendo uma variedade de produtos e malabarismos a cada sinal.

De uns tempos para cá,
a gente só leva pancada.
Golpe atrás de golpe.

Era um ato pequeno e pacífico, com ares de piquenique, de frente para um palácio de qualquer poder. As mulheres, novamente, estavam à frente do movimento.

Janaína, se bem me lembro, era alta, morena e assumia em forma de longas tranças seus cabelos crespos. Ela parou ao meu lado, com um sorriso cativante, ao notar, em meio a toalhas, flores e cartazes, meu minúsculo e sedente cachorro – companheiro de vida e resistência. Enquanto oferecia água ao cão, se pôs a me contar que estava preocupada e também cansada. Estávamos todas, na verdade.

Entre desabafos aqui e ali, procurávamos consolo nos abraços umas das outras. Prolongados suspiros anunciavam que o pior ainda estava por vir – e veio. Continua vindo, a cada dia deste ano que se arrasta, e, ao que tudo indica, vai se estender pelas próximas estações.

A cidade era hostil conosco. Ainda é. Nestas ruas acinzentadas, as pessoas se fecham em si mesmas. E os outros? Pouco importa.

Há, contudo, gente na contramão. Janaína, por exemplo, dava tanta importância que até doía. Ela é professora. À época, dava aula para mulheres no presídio feminino da região. Hoje não sei o que faz ou por onde anda. Não faz muito tempo que a conheci, só que, de lá para cá, tanta coisa mudou.

Naquela tarde, ela descreveu, com empolgação, os efeitos das palavras e livros na vida das alunas. Vocês devem ter reparado, a vida é sobre oportunidades. E a turma de Janaína, enfim, tinha esbarrado em uma dessas raras chances de aprender, que passam como relâmpago diante de gente como elas. É preciso que se movam com agilidade para agarrar as circunstâncias. Ou lá se vai uma brecha, um lance de momento em que a sociedade as inclui e acolhe. É que um evento desses quase não circula pelas periferias. Desfila, porém, com gosto e empenho por entre bairros nobres.

O mundo é vasto e diverso, lembrou Janaína. Então por que quem segura firme suas rédeas são esses poucos homens? Tão brancos, tão velhos. Tão ultrapassados. Eles não refletem a nossa amplidão. Ela constatava, desapontada e infeliz, a crueza da realidade. Também, pudera, de uns tempos para cá, a gente só leva pancada. Golpe atrás de golpe.

Depois daquele domingo, não a encontrei mais e, portanto, não tive notícias de sua consternada inconformação. Para ser sincera, não sei se a gente ainda vai se ver por aí, de novo. Mas enxergo Janaína nos teimosos esforços de quem ainda acredita que tudo vai melhorar.

Calma, Janaína. A diversidade já tomou a dianteira. Mesmo que o caminho seja longo, a gente vai longe. Tem que confiar. E resistir.

 

* Esta crônica faz parte da coletânea “Conexão Brasil 2019”.

você está na categoria existência

à toas no facebook

Pin It on Pinterest

Gostou? Compartilhe :)

Mostre para os seus amigos a realidade por outros ângulos.