Um dia, afinal

Vai passar. Quando a exaustão bate à porta, ligo o som para ouvir, de mansinho, um rastro qualquer de esperança. Escuto a voz dessa gente que há décadas resiste. Eles sopram rimas de força bruta, escondidas por entre versos discretos. Os desatentos nem percebem. Mas a arte conforta, a arte movimenta. Mesmo quando se olha ao redor e o que predomina é dor. Essas vozes todas insistem em cantarolar que vai passar.

Há pouco, em meio ao inverno rigoroso para lá do trópico de capricórnio, sentei em um café para me aquecer e discutir amenidades. Veio, então, me interromper, uma criança que não tinha mais de três anos de idade. Ele levantou com a mãozinha uma cesta que quase não cabia em seus braços e ofereceu, entre tímido e cansado, algo que não pude identificar ao certo se eram balas ou chocolates. Recusei e agradeci a oferta, confusa e igualmente constrangida.

A gente nunca sabe o que fazer quando a vida chega assim, de repente, e bagunça o nosso conto que, vá lá, pode não ser de fadas e princesas, mas que também não está preparado para as histórias de terror que a realidade guarda. A vida anda por aí, às pressas, ansiosa para escancarar bem diante de nós toda a crueza do existir.

Observei com cuidado aquela pequena figura se afastar e passar pelas demais mesas. Um grupo escolheu um de seus produtos e entregou ao menino o dinheiro acompanhado de um sorriso piedoso. O garçom, de longe, contemplava a movimentação e acenava positivamente, para garantir à criança que estava tudo bem, que ele podia entrar ali para vender suas mercadorias.

Na sequência, o garoto deu as costas e dirigiu-se à porta da cafeteria. Tentou puxar a maçaneta com firmeza, mas a porta era, tal qual a vida, demasiado pesada para ele. Contudo, ele insistia. Levantava os bracinhos, determinado, e repetia o gesto. Sem muita demora, o garçom o socorreu. A porta deslizou e eu fiquei sem reação, apenas assistindo o menino de corpinho minguado se afastar dali.

Ouço então a voz de Chico. Para todo lado, vejo essa gente levando pedras feito penitentes. Erguendo estranhas catedrais. Vai passar. A senhora solitária de olhar desvairado que arrecada esmolas em uma caixa de sapato. O rapaz que pedala dia e noite atrás de lixo alheio para garantir a refeição de hoje. A família que anda, descalça, remexendo em containers para abastecer de restos sua carroça puxada por um cavalo faminto. A ambulante que não vai se aposentar, apesar da dor nas costas e do peso, da carga, dos dias. Vai passar. Não vai?

A gente precisa acreditar. A gente tem que fazer. A gente não tem outra opção. A gente só pode acontecer. E resistir.

Penso nos tombos. Foram anos de trancos, ruidosos barrancos. Foi um tal de levanta e cai, levanta e cai. Com quedas cada vez mais fundas, mais fortes. Com menos graça. Mas vai passar, eu sei.

Suspiro com vontade. Os problemas do mundo mal cabem no universo. Quanto mais em mim.

Elis vem me lembrar, como um abraço de consolo, que “uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente”. Um dia, afinal… Vai passar.

 

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