tia-bisavó

Quando conheci vó Quita, ela já era uma senhora de cabelos curtos e totalmente brancos, coberta de adoráveis rugas, uma ilustração natural dos percursos que atravessou em seu quase século de vida.
Tenho uma lembrança distorcida do seu aniversário de 90 anos. Foi uma festa surpresa, parece. Com esforço, resgato na memória uma imagem remota da gente criança, eu e um monte de primos, numa grande correria para assistir a sua chegada. Ela vinha devagar, apoiada na bengala de madeira maciça. E sorrindo.
Só consigo lembrar dela sorrindo. Ou servindo bolachas doces, de cobertura branca, facilmente esfareláveis e guardadas em grandes potes em forma de flor. Sua casa era simples, suas coisas eram dispostas cada uma no seu devido lugar e para lá da cozinha, já no quintal, tinha uma espécie de pomar. Talvez fosse só um mato com árvores frutíferas. Não sei ao certo.
As recordações se embaçam com as horas, imagine com os anos.
Vó Quita morava para os lados de cima da cidade e tinha o hábito de descer ladeiras para visitar os seus. Gostava de se saracotear por todos os cantos. Era independente e corajosa. Faltava-lhe, contudo, a coragem de andar de avião. Por isso ia de ônibus daqueles pampas longínquos até o litoral carioca para ver a neta. Ia, voltava e ia de novo. Carregava consigo, além da bengala, uma mala discreta e um punhado grande de muita alegria.

São figuras como a sua que moldam um pouco quem a gente é
e ainda mais quem a gente quer ser.

Se fôssemos reconstituir suas décadas, a felicidade não seria parte assim tão frequente das páginas daquele extenso conjunto de dias. Ainda assim, desconfio que por teimosia, ela não deixava de sorrir por nada.
Nasceu em condições precárias e cresceu saudável num casebre pobre. Filha de mãe lavadeira e pai desconhecido. Espiava, de canto de olho, toda a majestosidade da mansão vizinha. A varanda da família rica abrigava festas com grandes banquetes e mantinha acesas luzes elegantes só para iluminar os egos daqueles grã-finos.
De tanto se encantar com os brilhos do outro lado da rua, acabou fascinada também com o filho da aristocracia, um rapaz esnobe e cheio de vaidades. Ela tinha ainda poucos anos quando engravidou da criança bastarda e renegada pela casa da frente. O menino cresceu sem ser reconhecido pelo pai da alta-sociedade. O pai casou-se com uma moça igualmente abastada e tiveram seus próprios herdeiros para compor as reluzentes comemorações. Vó Quita e o filho olhavam os eventos de fora do muro. Nunca foram convidados.
Naquele início de século passado, a cidade era bastante cruel com uma mãe solteira. Cidadãos que se davam ao respeito até mudavam de calçada quando a avistavam. Não queriam correr o risco de se deparar com uma mulher assim tão imoral. Exceto os mais inconformados. Esses faziam questão de passar perto só para poder cuspir no chão que ela pisava.
Vó Quita, envolvida nos erros e intolerâncias do seu próprio tempo, contornava as mágoas de cada ofensa e ensinava o filho a amar e respeitar o pai. Ela mesma guardava escondido o seu próprio afeto por aquele homem que os rejeitou. A vida, com sua perspicácia, passou paciente por algumas décadas, até que teve chance de revelar a ironia da realidade. Em uma noite cheia de silêncios truncados, o antigo rico da cidade – agora sem nem um tostão – foi até o filho ilegítimo pedir, por favor, que abrisse o portão. Ele precisava de casa e também de comida e morreu sustentado pelo descendente que, até outrora, havia desdenhado.
Na família, contam que vó Quita, após cuidar por anos a fio da mãe doente, definhando em cima de uma cama, jamais reclamou. Dizia que era sorte grande ter esse convívio por um pouco mais de vida. Ela era forte e, o que é mais curioso, sequer suspeitava da grandiosidade de sua firmeza. Morreu sem que eu pudesse lhe dizer o que só descobri já na idade adulta: são figuras como a sua que moldam um pouco quem a gente é e ainda mais quem a gente quer ser.
As memórias que guardo dela sopram, do passado, pura resistência para encarar esta e as próximas épocas. Vó Quita, com sua imensa coragem para seguir em frente, inspira o meu presente. Enquanto os resquícios de sua força bruta enchem de esperanças o que há de vir.

 
 

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