tarde de domingo

Era domingo. Uma dessas ocasiões de faxina da casa em que resolvemos jogar as velharias palpáveis no lixo, só para ver se isso descarta o que elas despertam na memória. Não que houvesse muitas velharias, nem muitas memórias. Mas, nunca se sabe. Por via das dúvidas.

Entre discos, livros e filmes, indicando uma solidão bem resolvida e, com um pouco de otimismo, até bem-sucedida, o fundo da estante escondia um passado. Ele nem teria observado este detalhe corriqueiro implícito na história de vida dos outros, se não tivesse, sem querer, esbarrado o dedo indicador direito na coleção de livros do García Márquez.

Aquele passado era dele por vias perpendiculares. Ele nunca lera um só romance do jornalista. Não se interessava. Certa vez, diante do tédio, tentou investir alguns minutos do ócio em Ninguém escreve ao Coronel. Mas não suportou passar do quinto parágrafo. Esses enredos muito inventados, muito floreados, não são seu forte.

Não na ficção. Mas as obras do colombiano estavam lá por excesso de ornamentação da realidade. Não era culpa dele de maneira direta. O problema era com ela, que insistia em ler histórias de amor e adorava fingir que ele era o mocinho, o violão e até o figurante de cada página do drama dos dois.

Sem nem desconfiar, ele fora amaldiçoado a um destino miserável de Florentino Arizza, apaixonado por ela “até o fim de nossas vidas”. E eles foram costurando esse roteiro de amor e outros demônios.

Observou os livros de capa dura, um por um. Todos seguiam o padrão verde escuro com o nome da obra em dourado. Aquilo era, possivelmente, o indício concreto dos cem anos de solidão que ele teria pela frente, se os domingos continuassem seguindo o mesmo rumo nublado que os dias vazios costumam ter.

Sentiu-se incomodado. Como um personagem passivo, sem poder moldar o script da vida que se arrasta, em vão.

Apanhou o exemplar de Memórias de minhas putas tristes. Leu rapidamente duas ou três páginas. E desistiu. Ele sempre desistia de amores explicitamente declarados e demasiado apaixonados. Isso ameaçava sua decisão madura e definitiva de ser só, até quando pudesse suportar a companhia de si mesmo.

Reacomodou os livros e filmes nas prateleiras de cima e escondeu as memórias na terceira gaveta, debaixo dos discos do Chico Buarque. Depois foi para a cozinha tomar um café e ver o relógio de parede anunciar, lentamente, o fim da tarde.

 

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