um conto de Natal

Ele mora na rua. Não tem lugar certo para dormir. Mas, nesta época do ano, gosta de ficar na rodoviária. Entre as felicidades que quase não tem, estão as luzes de Natal.

É quando o Eixo Monumental deixa de ser uma opaca simetria e ganha cores e vidas.
Ele não disse muito. Explicou que queria um trocado e que não precisava comer, já tinha lanchado qualquer coisa.
A doação passou pouco antes e, para provar, ele abriu a mochila e mostrou uma escova de dentes acompanhada de creme dental, um agasalho e uma garrafa d’água.
Talvez, só quisesse desabafar. Não. Era mais que isso.
Acho que ele queria poder falar, gritar até.
Tinha uma ânsia desesperada por ser escutado.
Contou que amanhã é seu aniversário e, sem demonstrar resignação, implorou por ajuda: “Eu sou um qualquer, um ninguém, e amanhã vou estar aqui, sem nada, por estas mesmas ruas…”.
Ele não disse. Mas parecia tanto querer um feliz aniversário. Um feliz Natal.
Quem sabe, um próspero ano novo.

 

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