pretérito imperfeito

É boa esta sensação de coração apertado, querendo dar meia volta, que a gente leva quando vai embora. Devem ser os tais momentos que se eternizam porque terminam na melhor parte. Sei lá, acho meio ruim ser a última a sair da festa. Não me dou muito bem com o vazio e sempre resta só ele para acompanhar quem fica para apagar as luzes.
Já pensou se eu não fosse?
É, também prefiro não pensar.
Geralmente o que vem em seguida é toda a chateação de se conhecer e se confundir e te descobrir cheio de defeitos, enquanto você me pega sendo puro tédio.
Não. Gosto de não saber nada de nós a não ser aquela confusão boa e meio distorcida pelas circunstâncias que fazia o estômago embrulhar quando a gente se esbarrava pelas escadas.
Tem histórias que para viver, precisam morrer primeiro. E foi bem ali, na hora que a gente morria discretamente, sem saber muito bem como funcionam as despedidas no pretérito imperfeito das vontades que não vão acontecer, que eu entendi. Nós fomos uma história. Até que boa, por sinal.
Por isso, fiz o maior esforço para não nos estragar de última hora. Mas sou meio torta com essas coisas. Nunca gostei muito de livros inspirados em contos de fadas. Aqueles em que todo mundo acaba feliz para sempre, sabe? Não acredito em finais felizes simplesmente por não acreditar em finais. Só acredito em próximos capítulos.
Virei o rosto, não soube o que falar e me atrapalhei com a ideia de ter feito errado. Aí você ficou lá parado, decerto pensando que a cada passo que eu dava, mais e mais longe ia ficando tudo que podia ter sido. E não foi.
O que foi, foi suficiente.
Suficiente para gente não se esquecer.
Porque – preciso admitir – não é verdade que eu te odeio, moço. A verdade é que eu odeio perceber, a uma hora dessas, que eu gostava tanto de você.

 

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