pesadelo

Acordou em um sobressalto. Ofegante e ainda com o coração aos pulos, demorou longos instantes para ter certeza de que fora só um sonho. Respirou fundo para tentar esquecer aquelas projeções oníricas de um conjunto de lembranças do que não aconteceu, mas poderia. Talvez ainda possa. Embora não quisesse admitir, ela sabia: não era só um sonho ruim, era também – e principalmente – uma tradução confusa e distante do seu medo mais íntimo.
A voz alterada. Os gritos. A irritação, causando o desconfortável efeito visual de que, se houvesse um pouco mais de raiva, os olhos sairiam de órbita. A ameaça – silenciosa, mas intimidante. O empurrão. O soco. E o vazio, expresso por uma insistente escuridão.
Era o mesmo pesadelo de outrora, compondo uma sequência de anos mal dormidos.
Já faz muito tempo e, nem por isso, é menos difícil pensar no assunto. Ainda dói. Dói de uma maneira tão vívida, que não dá nem para acreditar que foi há tantas estações.

“Passa da hora de juntar os pedaços e se refazer”,
repetiu mentalmente para si mesma uma dúzia de vezes.

Eles se conheceram por acaso e, de um jeito descompromissado, insistiram no assunto. Um dia, ele resmungou que as roupas dela eram demasiado curtas. Ela achou até legal. “É uma atitude bacana, significa que ele se importa”, relevou para um grupo de amigas boquiabertas.
Sabe, às vezes é difícil distinguir o que são traços culturais contornáveis – daqueles que, com um pouco de diálogo e doses de esforço, você até pode desconstruir – do que é problema na certa. E o quadro se complica ainda mais quando você própria está imersa em uma conjuntura de julgamentos superficiais, afogando-se em rótulos e preconcepções.
Alheia às estatísticas, ela deixou-se envolver pela pressa que ele tinha de que os dois acontecessem. O que transcorreu a partir daí foi um amontoado de emoções desencontradas, entre afetos e desgostos. Ele era amável e carinhoso e, ao mesmo tempo, grosseiro e ofensivo. Sem demora, fez dela uma obsessão.
A moça, atordoada, mantinha firme uma esperança inesgotável de que tudo ia mudar, muito em breve, para melhor. A culpa, ela queria mesmo acreditar, não era dele. Era do pai ausente, da mãe depressiva, da família desequilibrada ou das frustrações profissionais. Cedo ou tarde, de uma forma ou de outra, tudo aquilo ia se ajeitar. Não ia?
A cada briga emendada em desculpas esfarrapadas, perdoou. Tentou, ao máximo, esquecer toda variedade de insultos e afrontas. Deixou para lá provocações e desproporcionais cenas de ciúmes de Deus e do mundo. Colecionou, sem recuar, montes de humilhações das mais diversas. Verbais, emocionais, subliminares, disfarçadas, escancaradas. Até as físicas.
Ele tratava de convencê-la de que ela jamais encontraria alguém melhor. Destacava, uma a uma, as incontáveis qualidades que dizia possuir e realçava suas constantes provas de amor. Em paralelo, punha em evidência os supostos defeitos dela, seus desmandos e inescusáveis imperfeições.
Em uma conversa à toa, ele comentou, em tom de brincadeira, que nada era pior do que a emancipação feminina. Afinal, se houvesse uma máquina do tempo, de volta aos anos 50, ela ficaria em casa fazendo bolinhos, gastando o dia esperando ele chegar, e a vida seria simples e leve. Como estavam meio século adiante no calendário e esses delírios arcaicos tornavam-se mais e mais longínquos no espaço, parecia que, por puro capricho e teimosia, ele dedicava enorme empenho em tornar a vida de ambos bem pesada, arrastada, carregada de complicações e descompassos.
Nesta altura, ela já tinha percebido que algo estava muito errado. Por isso tentava, com determinação, se desvencilhar dele e de sua desordem. Foi quando se escancararam as ameaças e as artimanhas psicológicas. Se você for, eu me mato, ele garantia, diante de uma companheira incrédula, porém, assustada. Por via das dúvidas, ela ficava.
Eles batiam boca dia sim e outro também e, depois de cada descontrole do rapaz – todos repletos de ofensas desmedidas e colocações hostis –, ele oscilava entre alegações arrependidas, reafirmações convictas de cada desaforo dito anteriormente e pedidos chorosos de perdões para o imperdoável.
Por fim, depois de uma discussão por qualquer bobagem, ele levantou a voz. E a mão. E os braços. Depositou sobre ela, com violência e sem pudor algum, toda a fúria de suas experiências fracassadas, sob o respaldo de uma sociedade que o estimulou e consentiu que ele fizesse aquilo sem a menor culpa. Porque a culpa não era dele, reafirmaria, ao revisitar a cena na memória. Era culpa dela e de suas saias, de suas posturas, de seus desrespeitos, das ousadias e atrevimentos.
Ela, ainda que por outros motivos, também desconfiava que fosse culpada. Não devido a suas roupas ou atitudes, mas pelo fato de nada ter feito. Mas, após pensar e repensar conceitos, passou a admitir, exausta, que não é nada fácil fazer qualquer coisa. Relacionamentos abusivos sufocam qualquer um em dúvidas e desorientações. E, mesmo quando você acorda do pesadelo, as lembranças voltam nas noites de insônia.
Virou-se na cama com delicadeza e espantou seus fantasmas lá para bem longe.
“Passa da hora de juntar os pedaços e se refazer”, repetiu mentalmente para si mesma uma dúzia de vezes. Depois caiu no sono e, naquela utopia, deixou o medo transformar-se em força. Os dias traziam respostas e a cada manhã seguinte, ela acordava mais livre.

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