humano

Mário é um cara gente boa. Ele é baixinho, negro e de cabelos fortes e escuros. Barba cuidadosamente desenhada e, quase sempre, um sorriso amigável no rosto. Mora no apartamento ao lado, com seu marido alto e de uma brancura pálida, além de discreto, em uma antítese ao companheiro. Mário é conversador, fala pelos cotovelos e abre bem os braços enquanto solta gargalhadas largas.
A gente sempre se esbarrava pelos corredores e trocávamos cumprimentos breves, rápidas frases de gentileza. Um dia, paramos para conversar. Ele me contou que veio do Maranhão. Não disse quando nem por quê. Só sei que veio e foi parar na porta ao lado.
Lá, vivia em uma casa ampla e criava pássaros soltos, juntos de uma dúzia de cães e gatos. Aqui, contenta-se com um apartamento apertado onde ele próprio se sente engaiolado. Todas as noites, caminha duas quadras até uma árvore velha de sombra boa, na qual deposita comida para gatos de rua em vasilhas improvisadas e também troca, diariamente, a água dos bichanos.

Vai ver, Mário não se notou tão gente quanto eu o vi ser,
perambulando por aí com seus erros e acertos e lugares comuns.

Quando Mário me contou quem era, conversávamos distraídos e sem compromisso, até que um homem cambaleante nos interrompeu. Deve estar bêbado, pensei. Mas Mário, ao contrário de mim, não o julgou. Tratou de escutar sua história e ainda atendeu, sem demora, a súplica do desconhecido: “Por favor, ligue para o meu pai, eu tomo remédio controlado e, hoje, estou sem os comprimidos”. Ao passo que ditava o número, o homem ia, lentamente, deixando-se escorregar, por entre os carros, até o chão.
Meu vizinho não hesitou em ajudá-lo. Ofereceu um braço de apoio e disse, com doçura, que ia ficar tudo bem. Serviu água ao homem aproximando o copo de sua boca e certificando-se de que ingerisse o líquido. Depois de uma aparente eternidade, um senhor de cabeça bem branca e com jeito de constrangido, desceu de um carro cinza, atrapalhou-se com os pacotes que carregava e deixou que Mário desse os comprimidos ao seu filho. Em seguida, saíram, envergonhados.
Que sensível. Que humano. Pensei, sobre Mário e sua entrega ao desconhecido.
Dias depois, a gente se encontrou mais uma vez.
Mário, com seu modo extrovertido, parou para jogar papo fora.
Ele me contou que adora marcas. De roupa, de sapato, disso, daquilo. E, mesmo com o dinheiro curto, economiza tudo que tem para investir em seus gostos por uma etiqueta cara.
Fiquei com pena. Bobagem grande é se importar com um nome colado num pedaço de pano ou plástico. Mas, vá lá, a gente entende. É tanto anúncio, foto e som nos mandando comprar. Tem mesmo é que ter força ou desapego para não cair no conto da última moda ou daquele produto que é o do momento.
A verdade é que pena mesmo foi o que senti quando Mário me disse, com irritação e desprezo, que queria era dar uns tapas bem dados no moleque que, dia desses, roubara seu celular. Mas não pôde, por causa do tal de direitos humanos. “Direitos humanos não devia existir”, afirmou, categórico.
Senti um aperto acho que na alma. Logo Mário, tão, tão humano. De uma humanidade capaz de abraçar na rua alguém que nunca nem viu. Que, ao contrário de outros vizinhos, encara o porteiro e o pessoal da faxina de igual para igual. Que veio da periferia de um Nordeste sofrido. Que carrega na pele a cor marcada por um secular genocídio. Que leva no peito um amor que não pode ser livre por sofrer preconceito em cada esquina que Brasília não tem.
Não sei se Mário não observou sua própria humanidade. Talvez ele não saiba que a regra o inclui, que o direito do outro também vale para ele. Vai ver, não se notou tão gente quanto eu o vi ser, perambulando por aí com seus erros e acertos e lugares comuns.
Ou, quem sabe, ele simplesmente enxergue o tal do moleque – e seus derivados – como um maldito de um marginal. Aposto que não ocorreu a Mário que não é culpa do menino ter nascido à margem e não é vontade dele lá permanecer.
Mas Mário é gente boa. Mais que isso: Mário é gente. Qualquer hora, ele vai perceber

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