fora do gancho

Discou o número apressado, antes que desse tempo de se arrepender. Espantou a sombra da possível ressaca moral de amanhã. Juntar tanta coragem era um exercício que exigia sete doses seguidas de “o que você tiver de mais forte, por favor” em um boteco qualquer, numa segunda-feira monótona.

O telefone chamou três vezes e ela atendeu, com voz de sono. Devia ser o fuso.

– Alô?

Silêncio.

Ele lembrou, meio constrangido, que não tinha o que falar. Só queria dizer um oi, sei lá. Quem sabe jogar um papo fora. Mas será que ela iria entender essa saudade repentina há três anos de distância?

– Oi, cara de boi…

Novo silêncio. Ele sabia que a brincadeira dita no tom de voz dos tempos em que eles se cumprimentavam assim era inconfundível.

– João?

– Senti saudade.

– Já faz tanto tempo.

– Eu ainda penso em você, todo esse tempo.

Alguns segundos de respiração ofegante. Ela fora surpreendida, precisava recuperar o fôlego.

– Como você está? O que está fazendo?

– Estou meio bêbado. Lembrando de você em cada esquina que viro nesta cidade que é a cara de nós dois.

Ela ficou meio desconcertada, sem palavras. Ele prosseguiu:

– Não sei, talvez você tenha perguntado o que faço da vida. Arrumei um emprego numa fábrica de guarda-chuvas. Você sabe, não era bem o meu sonho. Mas me sustenta. Sustenta as contas, os vícios, as viagens.

– Fábrica de guarda-chuvas? Que irônico – ela deixou escapar, mas se conteve.

– Por quê?

– Ah, você sabe, você foi praí ganhar o mundo. Deixou uma vida para trás, agarrado na promessa de ter uma grande ideia, arrumar tudo e depois voltar para…

Silêncio.

– Te buscar? – pergunta ele, em tom sincero.

– Não sei…

– Eu queria. Eu quis muitas vezes – replica ele, quase como um pedido de desculpas – Você sabe, a vida real foge dos planos que a gente faz aos 20 e poucos anos.

– Você é feliz, ao menos?

– Ao menos? Achei que, no final, isso seria o máximo.

– É ou não é?

– Não. Não dá para ser feliz com esta falta incômoda.

– Que falta?

– Falta você aqui.

Silêncio.

– Eu não sabia bem o que era. Demorei uns tempos e umas paixões mal-sucedidas para ter certeza. Mas hoje entrei em um bar qualquer e lembrei de tudo, de nós. E fez sentido. É hora de voltar e te buscar.

– Já passou.

– Passou o quê?

– Passou da hora, João.

– Você tem alguém?

– Eu tenho a mim – respondeu com firmeza e certo ressentimento, que contornou, em seguida, imprimindo doçura à voz – Foi só uma recaída. Você está triste e bêbado. Mas vai ficar bem.

– Não. Não foi uma recaída. Eu preciso de você. De verdade.

– Foi bom falar com você.

O tu-tu-tu da ligação encerrada se sobrepôs a sua última tentativa de impedí-la de desligar o telefone. Ela colocou o aparelho no gancho, decidida a desligar-se dele em definitivo.

Ela virou para o outro lado e tentou voltar a dormir.

Ele saiu da cabine telefônica e seguiu sem muita certeza do próximo passo em uma direção qualquer.

Amores passados não deviam ter telefone, nem endereço. Nem qualquer outro resquício pessoal que prove que a vida continua, independentemente de a gente não continuar mais juntos.

 

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