fagulhas

A gente se torna mulher, disse Simone, em um de seus consagrados escritos, lá por meados de muito tempo atrás. E essa ideia, então – e enfim – transposta em palavras, ressoa ainda no dia após dia de cada menina que vem ao mundo. Uma amiga querida me contou que fica estarrecida ao ser chamada de educada. Ela não gosta da carga, dos silêncios e dos nãos que vêm junto do termo. É um elogio dissimulado. Uma sentença da submissão.

Ser educada lhe dói. Dói uma dor imensa, construída desde quando era criança, em cada represália para não falar palavrão ou para cruzar as pernas. O rótulo da educação é um jeito cruel de informar que o correto, para a mulher, é calar e sorrir. Luísa, essa minha amiga, lembra com tristeza de seus retornos da escola, aos oito ou dez anos. Volta e meia, ela esbarrava em homens com cara de avós de outras crianças. Sem a menor vergonha, eles mexiam com ela na rua, dizendo qualquer grosseria obscena. Ela, educadamente, abaixava os olhos e cumprimentava, baixinho, aqueles velhos senhores.

Luísa, para mim, sempre foi exemplo de educação e simpatia. Achei que ela ficaria feliz ao saber. Mas, hoje, não tenho coragem de contar. Sei que tal rótulo a fez, inúmeras vezes, abrir mão de si própria. Em um dia distante da infância, um coleguinha a beliscou na sala de aula. Ela não reclamou. Pensou que poderia soar rude. A situação, então, repetiu-se na tarde seguinte e na outra também. Quando deu por si, Luísa já tinha os braços roxos de hematomas. Preferiu deixar para lá. Não queria incomodar nem causar mal-estar a ninguém – embora, sem notar, causasse em si mesma.

Em casa, sua mãe a ensinava, desde pequenina, a não confiar em rapazes. Não só naqueles estranhos e desconhecidos. Não. Era preciso ter cuidado também com os primos e tios. Os homens, a gente sempre ouve dizer, são incapazes de conter seus próprios instintos. “Toda a gente sabe que os homens são animais”, brinca a canção portuguesa em uma espécie de sátira. Mas a mãe de Luísa não via a menor graça no estereótipo da brutalidade, da irrefreável masculinidade e em todas as concessões que essa garante aos homens. Ou nos danos e privações que, irremediavelmente, ficam com as mulheres.

Não é que a mãe de Luísa fosse visionária ou uma feminista atuante, leitora de Beauvoir. Pelo contrário. Ela acha que isso tudo é balela da modernidade e, quando questionada, afirma, categórica: “Não sou feminista, nem machista. Sou humanista”. De qualquer forma, ela queria proteger a filha e sabia que o mundo, para as mulheres, é mais cruel. Muito embora a gente não possa espalhar isso por aí, aos quatro ventos. Faz de conta que somos todos iguais. Já fazemos assim há tanto tempo. Não é agora que vai mudar. É?

Não sei.

Tomara.

Luísa, por exemplo, tem feito sua parte com empenho. O mundo pode até não mudar. Mas ela pode. E vai. Está disposta.

Outro dia, veio me contar que está treinando para falar palavrão. Até me convidou para fazer o teste. Tenho mil e uma ressalvas com os palavrões e suas origens, para além das travas, mas prometi que também vou tentar. O desafio pode parecer curioso, equivocado ou até pouco efetivo. Mas, acredite, é um passo e tanto para quem, até pouco, tinha de se moldar feito o espelho da perfeição em um mundo tão imperfeito. Para Luísa, dizer palavrão é experienciar ares de liberdade. É se desprender de amarras que a impediam de ser quem é para a impelir a ser o que, em tese, deveria. Agora Luísa pode se descobrir. E até se reinventar. Ela está cheia de poderes.

Em meio a tantas reinvenções, Luísa me deu de presente um livro instigante, de Amanda Lovelace, que veio acompanhado da imagem da foto.

Coloquei o ímã na porta da geladeira para lembrar que já passa da hora.

De quê?

Bem, percebi que Luísa mais do que pode: ela deve – como eu, como você – atear fogo. Vamos juntas?

 

Mulheres: ateiem fogo

Ímã com citação de Amanda Lovelace.

 
 

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