duquesa à brasileira

Ela é filha do ex-governador mais votado lá na região onde nasceu. É uma moça com seus 30 e poucos anos, aspecto saudável e unhas e roupas que seguem à risca os códigos de vestimenta das revistas de moda que o marido, renomado empresário da indústria têxtil, deixa à mão das clientes na recepção do escritório. Sustenta no rosto o sorriso e os cabelos de quem teve acesso pleno aos mais especializados médicos do sistema privado de saúde. Mantém uma postura discreta e só emite suas infundadas convicções em meio a colegas mais íntimos. Ela não é má pessoa – se é que isso existe. Mas lhe falta alguma coisa para ser considerada boa. Talvez seja empatia. Quem sabe só bom senso. Para ser sincera, acho que ela precisa é de um pouco mais de vida mesmo, de realidade crua. De convívio com o cotidiano ríspido e brusco que uma parcela majoritária de gente tem de encarar todo dia, a começar antes mesmo do amanhecer.
O pai, em discursos sobre a necessidade de se falar por quem não tem voz ou consciência, usa a filha como exemplo de alienação política e insiste que é seu papel representar aqueles que não sabem bem o que se passa a sua volta. Entretanto, o que ocorre, no fim, é o inverso. A gente olha para ela e vê, com clareza, tudo o que ele representa. Eles vêm de uma família rica com raízes nas capitanias hereditárias. São políticos há gerações e, ainda assim, acreditam sinceramente que oportunidades resultam apenas do mérito. Outro dia, ela me contou que a avó materna teve uma penca de filhos e que ela não compreende de onde as mulheres de antigamente tiravam ânimo e coragem. Depois pensou um instante e acrescentou que, claro, à época era mais fácil criar tanto menino, afinal, todo mundo tinha ama de leite em casa. Ela faz afirmações assim com tamanha segurança, que quem ouve até se assusta e, na sequência, fica sem jeito, indagando-se mentalmente se a postura seria consequência de uma ignorância ingênua ou de uma impiedade desatenta.
Insisto, contudo, que ela não parece ser má. Embora mantenha, invariavelmente, na pauta de conversas com as amigas, críticas ao conjunto de empregados que administra em casa aos apuros. Ela anda aborrecida a toda hora porque acha que a faxineira, o jardineiro, as babás, o cozinheiro e também a folguista são insolentes e preguiçosos e poderiam fazer melhor. Vive em uma mansão e cresceu habituada a dezenas de serviçais em casa. Sua mãe sempre lhe ensinou que ela deveria coordenar as atividades de cada um deles, porém, sem jamais estragar o esmalte colocando a mão na massa, na louça ou na roupa. O marido, todavia, acusa a moça de desleixada, diz que uma esposa que se preze deveria saber direitinho como ensinar a lavadeira a colocar as roupas na máquina.
Apesar de ficar triste, não rebate o companheiro. Jurou no pé do altar obediência ao marido. E é devota de tal forma que não arriscaria abalar por tão pouco – nem mesmo por muito mais – o sagrado matrimônio. Não falha uma só missa, mas, para além da fachada da igreja, crê em Deus de um jeito estranho, que deixa transparecer, nas entrelinhas de suas rezas, que o fervor de tanta crença está encoberto de medo, bem mais que de adoração. Do contrário, acredito que tentaria levar a sério essa ideia de amor ao próximo. Ou, vai ver, ela acredita que o céu também tem hierarquia e que ela só deve simpatia àqueles que estão na sua mesma posição. Os demais quase nem são gente, quanto mais próximos. Cá entre nós, ela até prefere que continuem longe. Tem síndrome de princesa e não se sente nem um pouco confortável de estar ao lado da plebe.

Vive feito majestade, à custa de um povo sofrido.
Embora não admita, depende da desgraça e da penúria dos outros, para sustentar seu conto de sonhos e fadas.

Admira os Estados Unidos e, uma ou duas vezes ao ano, aluga casa na praia em Miami e vai até Orlando levar as crianças à Disney. Repete, de boca cheia, que lá é que é um lugar decente, em que as pessoas são corretas e livres. Porém, só vai ao país visitar, não quer se mudar de vez. Não consegue entender como as estrangeiras se viram sem uma empregada em casa. Já pensou? Ter que cozinhar, varrer e passar a ferro gola de camisa. Não, melhor é ficar por aqui. O Brasil tem sim seus defeitos, mas, para ela, as coisas até que não vão tão mal.
O ruim é a alta dos preços, a cotação do dólar subindo. Só de mercado, a cada duas semanas, ela gasta o equivalente ao salário das duas babás e mais o da faxineira. No trabalho, faz coro às reclamações de que está tudo um horror de caro. Adepta dos itens de marca, faz questão de apontar valores até das aquisições mais descabidas. Relata que, outro dia, foi encomendar toalhas na internet e gastou quase um salário mínimo. As colegas se entreolham, espantadas. Umas sequer acreditam. Outras ficam deslumbradas.
É culpa da ação do Estado intervindo na economia, é o que ela repete nas rodas de amigos, ecoando as palavras do pai. São contra essa história de que o governo tem de garantir saúde e educação. Cada um que dê seu próprio jeito: pague a escola dos filhos e contrate um plano particular de saúde. Se não acaba virando folia. Já pensou? Ter que sustentar com impostos os gastos e as contas de quem não se esforça o bastante para garantir, do próprio bolso, o básico para a família.
Para negro, ela torce o nariz. Diz que não é preconceito, é só para evitar o mau-cheiro que exala de suas peles escuras – para não dizer encardidas. De gay, ela evita falar. Não quer se envolver com o pecado nem ter que lidar com suas pervertidas depravações. Mulher? Só se for delicada, comedida, ajuizada e usar roupa comprida. Se o sujeito for pobre, ela já desconfia. Procura não expor em voz alta, mas tem para si que eles não sabem votar e, se não cedessem a esmolas, a gente não estaria onde está.
Ela espelha a nobreza do pai. Vive feito majestade, à custa de um povo sofrido. Embora não admita, depende da desgraça e da penúria dos outros, para sustentar seu conto de sonhos e fadas. Tudo bem, não casou com um príncipe e no fim do mês ainda se preocupa com o boleto da escola polilíngue em que suas crianças estudam – não sabe por qual motivo, a cobrança não é automática. Mas, diante de tanta miséria, da crise, da fome, da falta, os excessos de sua existência garantem que acumule um monte de privilégios, tais quais os de uma princesa. Talvez ela nem perceba, mas carrega em sua história uma espécie de título, ainda que encoberto, que confirma o seu sangue azul. Ela é, no país dos índios, escravos e pardos, uma duquesa tupiniquim.

 

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