dignidade

O grupo já estava quase totalmente disperso quando ele apareceu. Era um protesto revoltado e entristecido por alguma das tantas perdas das últimas estações. Mas pouca gente aderiu. Vocês sabem como é. Rodoviária do Plano Piloto, 6 horas da tarde. Uns passavam com expressões de cansaço, outros franziam a testa indicando dúvida e mais alguns davam de ombros, fazendo pouco caso. A verdade é que, na pressa de correr para alcançar o sofrível transporte público da cidade – se o ônibus sair, sabe-se lá quando chega outro – ou para arranjar espaço em meio ao aperto daquela geringonça que é a única forma que muitos têm de voltar para casa, mal dá tempo de olhar ao redor. Quanto mais de interpretar o mundo.
As pessoas levam a vida do jeito que dá. E, mesmo que não dê, precisam retornar aos arredores tortuosos e demasiado reais da Brasília plana e imaginária dos sonhos alheios – jamais deles próprios –, porque amanhã começa tudo de novo. Começa cedo, ainda por cima. Então é bom acelerar o passo e deixar de lado qualquer distração que surja no percurso. No fim, quem circula pelas calçadas – pavimentadas ou improvisadas – da capital, dificilmente têm energia ou tempo de sobra para pensar os problemas de uma sociedade que os coloca naquela condição. O sistema é feito para isso e é precisamente tal dinâmica que o move e empurra tudo adiante. Mesmo que não seja justo. Não precisa ser. Contando migalhas e moedas no metrô lotado, ninguém nem tem ânimo de refletir a respeito.
Se, por um acaso, emergir qualquer revoltoso questionando a ordem econômica e social, é só dizer que ele é louco. Que besteira. Onde já se viu?! Está tudo no devido lugar. Quem se esforça, conquista. Basta este argumento para os demais se resguardarem, constrangidos, desconfiados de que não estão se esforçando o bastante. Vai ver é isso que explica tanta miséria, cogitam uns, embaraçados. Tantos outros seguem em frente e, à noite, baixinho, rezam para seus diferentes deuses e santos, na esperança de que um milagre possa livrá-los de tanto mal. Poucos se convencem de que as soluções são terrenas e menos ainda de que elas sejam possíveis. Os que acreditam que dá para mudar o quadro são, evidentemente, dados por amalucados.

As pessoas correm o dia todo, apressadas para se desvencilhar da desordem de suas multidões.

Acho que ele era um desses utópicos irremediáveis da última categoria. Ou – hipótese até mais provável – o sofrimento era tamanho que até o enlouquecera. Talvez fossem ambas as suposições. O fato é que ele nos interrompeu, entre choroso e indignado, para descrever sua história. Desembarcara em Brasília há uma dúzia de semanas com a filha e, sem teto ou qualquer perspectiva de emprego, passaram a dormir pelos viadutos da rodoviária.
Certa noite, a moça foi confundida pela polícia com uma infratora procurada. Foi espancada diante dele, apesar dos gritos de dor e de pânico, que aos poucos foram se transformando em silêncio. Ela não resistiu. Seu corpo foi jogado no lago Paranoá na calada daquela mesma madrugada fria. Ele permaneceu lá, inconsolável, no mesmo lugar. Queria ir para sua cidade, queria contar para a família, fazer um velório decente, organizar o enterro. Mas a falta de qualquer trocado o mantinha preso ao cenário de sua tragédia. Até que, num fim de tarde vazio, ele esbarrou conosco. Segurava firme um pedaço de jornal impresso e exibia, exasperado, a manchete do dia, sobre a violência policial no país.
Se é verdade? Eu não sei. Mas um amigo observou, certeiro: não importa. Não quero ser a figura que aponta para os indigentes taxando-os de loucos. Eu sei bem, contudo, o que senti. Suas lágrimas eram tão autênticas quanto aflitas, sua dor chegava a ser palpável e seu olhar transmitia uma tristeza tão grande que transbordava em nós. Seu relato enchia de compaixão as retas de uma Brasília tão torta. E ele não pediu dinheiro, não pediu abrigo nem mesmo comida. Ele queria mesmo era um abraço. Um consolo.
No resto ele dava um jeito.
Despediu-se pedindo desculpas – mania frequente de quem não tem culpa alguma – e virou as costas com a firmeza de quem sai em busca de dignidade em qualquer esquina. Não sei se já o avisaram que não há esquinas aqui por estas bandas. É uma pena. Entre tantos planos, esqueceram-se de prever espaços para as desarmonias das encruzilhadas. E a metrópole segue ampla, cheia de imponentes avenidas atravessadas só pelo vazio sempre que escurece. Raros bolsos podem pagar por uma cama quente alocada em uma superquadra ou em um condomínio fechado e vigiado 24 horas. A cidade, então, corta a noite tentando harmonizar solidão em meio a simetrias. E as pessoas correm o dia todo, apressadas para se desvencilhar da desordem de suas multidões. Nesta inversão de turnos, cidade e pessoas quase não se enxergam.
Ele quis voltar para casa porque, bem no fundo, sabia que sua história era demasiado humana para caber no concreto do plano piloto. Gosto de imaginar que, neste exato instante, ele está confortável numa casa simples, mas aconchegante, nos braços da filha mais velha. Mas a realidade é muito mais amarga que o imaginário. Pode ser que, como tantos outros, ele sequer encontre a tal dignidade. Espero, ao menos, que encontre coragem para seguir em frente mesmo quando lhe falta um pedaço de si. Coragem é o que a gente precisa para cruzar as ruas, com ou sem esquinas, dos centros urbanos, com suas largas pistas sobrecarregadas de desilusões.

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