desordem

Eles chegam na repartição todo dia às 7h da manhã. Francisca, na verdade, desce na parada mais próxima às 6h37. Para não perder a hora, já às 5h20 ela está preparada para cruzar a fronteira entre Goiás e Distrito Federal. Isso em dias normais. Nas ocasiões em que o ônibus atrasa, ela reza e faz sinal da cruz, implorando aos céus que a levem ao trabalho dentro de breves minutos, pelo amor de Deus. É que eles não podem, de jeito nenhum, entrar depois do horário. Quer dizer, até podem, mas não lhes convém, definitivamente. O supervisor alerta, dia após dia, que eles andem na linha: numa crise dessas, tem muita gente querendo um emprego como o que eles têm.
Credo. Não dá nem para pensar numa desgraça dessas. Imagina… Ficar sem serviço. Com tanto gasto e as contas e os filhos e agora o neto. O marido está desempregado vai fazer dois anos no mês de abril. Não pense não que ele fica parado de pernas para o ar sentado no sofá. Ele corre todo santo dia atrás de uma vaga em qualquer canto. Até faz um bico aqui, um galho ali. Mas, ao fim de cada mês, é Francisca quem segura as pontas e não deixa a casa cair.

Lá onde Francisca vive, a bagunça é explícita.
Mas, do centro da cidade, quem vê até esquece que, para aqueles que não cabem aqui, existir é uma aglomeração de desconcertos.

Não sei dizer com precisão a sua idade. Eu arriscaria algo na faixa dos 50, mas sei que há tantas condições que distorcem os fatos, como a falta de uma mesa farta somada ao excesso de sol da lavoura e às faxinas que fez desde a infância para juntar trocados. De qualquer forma, ela é uma mulher alegre, de baixa estatura, um pouco acima do peso e de cabelos encaracolados constantemente presos em um coque firme no alto da cabeça.
Sua rotina no trabalho é simples, embora esgotante. Em parceria com um dos colegas, ela limpa sempre um par de andares. Começam tirando a poeira das mesas e três vezes por semana passam aspirador. Na sequência, recolhem o lixo, e, às 10h, vão lavar os banheiros. O almoço dura duas horas. Eles esquentam as marmitas caseiras no micro-ondas do subsolo e aproveitam a refeição para conversar em grupo, contar piadas bobas e fazer de conta que não têm problemas. Quando dá, atravessam a rua e tiram um cochilo debaixo da sombra dos blocos sofisticados do outro lado da calçada ou recostam-se nas mangueiras de copas volumosas.
O mesmo rito vai se repetindo semanas adentro até completar um ano. Para, então, tudo recomeçar. Assim, sem folga mesmo. É que eles não conseguem tirar férias porque, toda vez que vai se encerrar o ciclo desses doze meses, a empresa alega que não deu para vencer as despesas, acaba por fechar as portas e muda de nome. A equipe é recontratada pela nova firma. Mas precisam trabalhar outro ano para conquistar o seu direito a férias.
Francisca, entretanto, não se sente à vontade para reclamar da vida. Afinal, ela tem um emprego e conseguiu dar mil jeitos para criar os filhos, agora já crescidos. Lá para os lados onde mora, as pessoas estão, quase todas, numa bem pior. A vizinha construiu um barraco da forma que pôde. O chão da casa é de terra batida e, como nem ela nem as crianças têm calçados para usar, estão sempre com a sola do pé pintada de um marrom meio avermelhado. Ela tem quatro filhos de pais desaparecidos. O mais velho já está com 9 anos e a mais nova acabou de fazer 3. Eles passam fome, frio e até mesmo sede. Francisca se desdobra em várias para ajudar. Quando cruza pela janela improvisada do casebre feio, leva ao menos um sorriso aos pequenos, só para lembrar à família que eles não estão sozinhos neste mundo imenso e nada acolhedor.
Às 17h, Francisca e os demais colegas retornam para suas periféricas realidades. Do interior do ônibus, em meio a empurrões de quem procura maneiras de se equilibrar, ela observa a paisagem da cidade se transformar. Os jardins podados e bem desenhados e os prédios caros de vidro espelhado, gradativamente, vão abrindo espaço para construções desordenadas, calcadas em restos de madeira usada, cimento misturado com barro e esperanças empoeiradas. Amanhã, na primeira hora, Francisca já volta. Ela vem, resignada, encobrir a sujeira e a desorganização de um universo que não lhe pertence. Lá onde Francisca vive, a bagunça é explícita. Mas, do centro da cidade, quem vê até esquece que, para aqueles que não cabem aqui, existir é uma aglomeração de desconcertos.

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