arrependimento

Enfiou as mãos nos bolsos da calça, angustiada. Pensou em segurar um copo em uma mão e, sei lá, um cigarro na outra. Não que já tivesse fumado alguma vez na vida. Só queria parecer mais confiante. As pessoas precisam sempre segurar firme, com as duas mãos, em qualquer coisa, para simular o mínimo de domínio sobre a situação. Ou sobre si mesmos.

Na falta de copos e cigarros, escondeu o nervosismo dentro da roupa e respirou bem fundo.

Ele devia chegar a qualquer momento e ela queria terminar aquilo de uma vez. Para ver se não doía. Mas a gente bem sabe que o único jeito de terminar não doer, é não começar.

Os dois até pensaram nisso lá no comecinho e também antes disso. Escorados na janela, procuravam uma solução racional para a vontade que tinham, como se ela pudesse estar entre a grama seca do jardim ou nas linhas excessivamente planas das moitas recém aparadas. Sei lá, não devia estar no olhar curioso para ver no que aquilo ia dar que ele insistia em vestir. Muito menos na boca dela, que falava sem parar, só para evitar a dele.

Quando perceberam que a reposta era o tamanho da dúvida, que o medo era um indicador concreto de que a besteira estava feita, as palavras dela calaram, meio assustadas, e ele aproveitou a oportunidade.

O que se sucedeu depois foi um amontoado de dias em que eles tentavam acabar com a vontade, que insistia em crescer. Talvez fosse melhor alguém intervir nesse negócio das pessoas se conhecerem melhor. Sempre dá errado. Ou gera decepção. Ou vira motivo para elas se desvendarem mais e mais.

No caso deles, o alguém não podia ser nenhum dos dois, porque ambos estavam por demais ocupados um com o outro. Nem podia ser um terceiro, pois eles se guardavam em segredo, à sete chaves numas gavetas velhas de seus corações empoeirados. Era bom de um jeito que os outros não precisavam saber. Bom de um jeito que era só o que eles precisavam saber.

A grande complicação é que não era para ser bom. Nem ruim. Não era para ser.

Ele chegou apressado, se escondendo atrás de sorrisos amarelos. Vinha segurando firme um punhado de coragem e trazia na mochila as mesmas intenções que ela. É que eles tinham que evitar. Evitar que ficasse melhor. Não queriam correr o risco de dar errado. Muito menos, de dar certo. Não gostavam de gostar de tanta intimidade.

O risco de se envolver é que em certa altura fica difícil medir se vale mais a pena andar para trás ou seguir em frente. A gente só descobre até onde vão os sentimentos se formos até o fim. Nesta altura, a maioria das pessoas se dá conta de que o que sentiam era grande e não era uma questão de valer a pena. A pena já estava paga, e o que havia entre eles valia muito.

Mas eles nunca ficaram sabendo disso. Covardes, pararam no meio do caminho – não foram, nem voltaram. Sei lá, acho que não contaram para os dois que os piores arrependimentos são os daquilo que não aconteceu.

Todas as noites, e também nos dias, cheios ou vazios, eles se arrependem de não ter acontecido.

 

 

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