amizade em preto e branco

Mas por que agora? – eu quis entender, perplexa. Você não sabia, apesar de, no fundo, nós dois concordarmos que era só uma forma de tentar me enlouquecer em definitivo, se escondendo atrás da proposta de resolver isso de uma vez por todas e ficar em paz. Vamos esclarecer as coisas enquanto há tempo, era uma súplica – juro – quase convincente. Só não dava para compreender a necessidade súbita de pôr em pratos limpos qualquer coisa entre nós, passados tantos dias, transcorridos diversos outros casos e depois de rendidos a diferentes pessoas.

Então vem aquela justificativa babaca – para não dizer encantadora – de que você sabe muito bem que eu sinto a mesma vontade que você, mas você controla qualquer instinto na tentativa inabalável de não me magoar. Precisa dizer isso segurando firme meu rosto e me fitando com mais firmeza ainda? Ok, eu entendo. Nunca disse que precisávamos ter uma relação – qualquer que fosse o gênero ou classificação – além de amizade.

Também acho que não somos só amigos. Vamos sim ser bastante transparentes, já que temos pouco tempo. E eu estou sendo sincera. Sério! Não pressione. É que eu nem sabia mais que você consegue despertar em mim esta indignação misturada com ternura e certo prazer em não compreender nada do que se passa por aqui. Agora me explica como vou te achar um idiota se você recomenda aos amigos (500) Days of Summer? Por causa da trilha sonora, claro, jamais pelo enredo. Sem contar que se dedica por tardes e noites a ler todo tipo de ficção ou realidade de amores e dramas e depois descreve, empolgado, as histórias que mais gostou. Prometendo – sem nunca cumprir – me emprestar, assim que acabar.

Apesar disso que acontece com a gente, você tem que ser maduro o suficiente para encarar que eu não me importo tanto assim. Não a ponto de te penalizar quando você pisa na bola. Eu não faria isso. Assim como sei manter o sorriso intacto nos olhos quando alguém comenta, descompromissado, que você foi lá para fora ou para dentro com a fulaninha. Oras, há tempos me habituei a peneirar os mínimos indícios de que temos algo além de companheirismo e doses semanais de diversão.

Por favor, não tente me convencer de que eu não suportaria seu ritmo. Eu já estou, caso você realmente não tenha notado, embalada por e com ele, não é de hoje. Eu teria deixado no esquecimento a sensação de que a gente tinha tudo para dar certo, se você não tivesse sussurrado de forma tão clara. Devem ser esses ares de despedida. Talvez, a sensação de que, se não for agora, pode ser tarde demais. E aí, você vai mesmo insistir na ilusão de que não exala de você puro romantismo enrustido?

Tá, eu admito. Você até que é um grande idiota. Não por me fazer chorar ou por ter me feito interpretar tudo errado. Acho que também não chega a ser pela covardia, nem pelo medo, eles só conferem charme à situação. Será que é pela mania de, por comodismo, se fingir de desentendido? Não, não. Você é um grande idiota só porque, no momento, me convém. Não queremos nem nunca quisemos complicar as coisas. Ao menos não assumidamente.

Vou dissimular um rancor qualquer e você trate de improvisar indiferença. Um dia as coisas voltam ao normal e a gente esquece de vez o que nunca nos permitimos ter. Confia.

 

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