agridoce

Outro dia, voltei para casa. Bem, na verdade, uma das casas. Quando a gente se lança ao mundo, um amontoado de cantos vira um pouco lar. Mas esta casa tem um encanto a mais. Um quê de realismo fantástico. Uns contos que até a ficção duvida. Afora a nostalgia de uma infância entre vazia e eufórica, voltar para lá era, desde que fui embora, tão acolhedor quanto um abraço apertado. Sempre tinha o mais delicioso dos pudins na geladeira e uma cama quentinha me esperando para deitar. A viagem é cansativa, longa. Às vezes, vão dias a fio até chegar àquele remoto destino.
Trata-se de uma cidadezinha distante, ao sul de lugar nenhum e, ao mesmo tempo, do mundo inteiro. É um lugar de paralelepípedos antigos e levemente tortos, efeitos do passar dos anos. Um forasteiro que cruze, por engano, o trevo para lá da estrada e desça município adentro, só vai desconfiar que a contemporaneidade – com suas modernices que consomem os dias – esteve ali, não faz muito, se olhar para o chão e notar o asfalto que atravessa a avenida principal.
Mas basta virar a esquina, antes do calçadão, na rua da rodoviária, que tudo volta a ser como antes: construções simples e cadeiras desordenadamente dispostas na área da frente, que é para receber parentes e amigos e colocar a conversa em dia no fim da tarde; gente que anda em um compasso tão ritmado de forma que até sobra tempo para cumprimentar os vizinhos; e corpos de todas as idades que espiam, por entre frestas de janelas, a vida que, ao que tudo indica, se arrasta em vão.
Desembarcar neste universo quase inventado, a cada duas ou três estações, alivia o peso da minha realidade sempre tão concreta, tão congestionada com o breu das luzes da capital. É um sentimento tão doce quanto o pudim de minha avó, que, por década e meia, posicionava-se, no começo de julho ou em meados de dezembro, na entrada de sua desconjuntada casa, aguardando um ônibus ou carro que me levasse de qualquer distância até o seu confortável abraço.
Desta vez, contudo, ela não estava na porta, em sua espera ansiosa. A chegada não tem a mesma graça sem aquela silhueta pequena e, outrora, rechonchuda, com seus cabelos de codorna e suas pernas inquietas que não gostam de sentar.

A gente fica com uma sensação latente de que, qualquer dia, sem mais, sem menos, sem nem avisar, até ela vai sair de lá.

Ela é uma mulher e tanto.
Ela e a filha me ensinaram a admirar o meu próprio gênero de uma forma que sequer cabe em mim. Por causa delas, sou convicta de que todas temos a força de Ana Terra e a persistência de Bibiana, que encheram de coragem continentes e arquipélagos de Érico Veríssimo. Seguramos as rédeas, tal qual Lou Salomé, que, em sua inabalável firmeza, dizem por aí, era capaz até de fazer Nietzsche chorar.
Embora minha avó tenha segurado a barra mais do que qualquer outra coisa. Lembro bem que, quando eu era criança, ela sempre me dizia, com o olhar distante: “Se eu tivesse nascido homem, seria caminhoneiro”. Eu rebatia, cheia de uma perplexidade infantil: “E precisa ser homem para isso?! É só virar caminhoneira agora”.
Ingênua, eu muito pouco desconfiava dos entraves, barreiras e cobranças que a sociedade impõe a uma mulher. Ainda que, a despeito disso, é verdade, tudo é possível.
O fato é que a vó era, por um lado, medrosa, mas, muito mais que isso, demasiado altruísta para largar todos os seus por um ímpeto de liberdade.
Então ela ficou. Criou filhos, criou netos. Foi uma companheira leal, paciente e – não sei bem como – apaixonada. Viu a casa se esvaziar.
Fomos embora um a um, ainda que esse e aquele tenham voltado eventualmente.
Deus do céu, ela deixou de lado toda uma vida para se certificar de que ficaríamos bem.
Olha, deu certo, à medida do possível.
Mas ela lembrou tanto de nós que se esqueceu de si.
E, em meio a tantos anos e esquecimentos, também fomos, aos poucos, desaparecendo da memória dela.
Ela diz que é triste ficar velha, que as pessoas riem dela como se não fossem envelhecer também. Só que a gente não ri por mal. Ao menos nós, não. Juro. Muitas vezes é por desespero mesmo. É duro imaginar que tantas lembranças se perderam. Dói quando ela não nos reconhece e mais ainda quando ela chama por quem já nem pode mais, há tempos, vir acudi-la.
No decorrer das horas, ela revisita memórias e enxerga gente querida que só existe, agora, em suas recordações. As circunstâncias transcorrem vagarosas e confusas, de modo que ela observa – de perto e já bastante entrosada com as imprecisões e as ausências, tão comuns ao estado senil – flutuarem entre céus e terras as reminiscências de uma época que já não é mais.
Houve uma ocasião, talvez a mais desoladora delas, em que minha vó insistiu, contundente, que queria ver a sua mãe. “Você conhece a minha mãe, não é?”, questionou, segurando firme o braço da primeira de nós que encontrou ao seu alcance. Depois, sem demora, acrescentou, com olhar suplicante: “Chama a mamãe para mim, por favor!”.
Sem saber ao certo como reagir, apenas nos entreolhamos, aflitas. Sua mãe havia morrido quando ela ainda era criança, há um bocado de acontecimentos e de gerações. Com cuidado, expliquei que não seria possível chamá-la, pois, no momento, ela não estava por lá. Lacrimejante e com a mais arrasadora das expressões no rosto, vovó nos fitou e disse: “Mas eu preciso tanto dela, não é possível que ela não tenha como vir aqui, só um pouquinho, para me ajudar”.
É, a velhice – acompanhada da doença, do esquecimento – é bem triste sim, a vó tem razão.
Entretanto, desponta em nós, por vezes, um lapso de alegria congelado em breves instantes: quando ela sorri ou nos abraça ou simplesmente quando nos permite retribuir o carinho de toda a sua existência.
A gente fica com uma sensação latente de que, qualquer dia, sem mais, sem menos, sem nem avisar, até ela vai sair de lá.
Como é que pode?
Parecia que aquela seria para sempre a casa da minha vó.
No fim, espero só que ela sinta – nem precisa lembrar – o tamanho da gratidão e do amor que exala de nós. E, se não for pedir muito, também queria ver de novo, quando retornar, aquele corpinho miúdo na porta, espiando a tarde passar. Sem a figura dela ali, o realismo da minha cidadezinha deixa de ser tão fantástico e os seus contos tornam-se menos encantadores.

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