a goteira da sala

É verão. Chove na minha janela uma água bem fria. Suponho, aqui do lado de dentro. Faz uma goteira em mim, mas não chega a umedecer minhas vontades. Eu continuo seco.

Sabe, sempre fui um cara estranho. Do tipo que se esgota em crenças inabaláveis e se encharca de exposições superficiais a fim de ocultar qualquer indício de auto-piedade para, quem diria, morrer afogado em toda essa compaixão que tenho por mim mesmo.

Certa vez, eu achei que alguém viria me salvar deste oceano de medos. Acredite, cheguei a pensar que você era a pessoa certa para me tirar deste dilúvio, da tempestade que é a vida real.

Os dias passaram, os verões foram, os invernos vieram e a chuva já está de volta. Só você se perdeu em qualquer estação de algum tempo atrás. Por que tanta insistência em não acompanhar meu ciclo? Essa persistência em se manter mais fria do que a chuva lá fora. A angústia que você insiste em deixar suspensa no ar, como uma nuvem carregada que a qualquer momento pode se precipitar sobre nós.

Quando a chuva cai forte assim, eu imagino como seria se você estivesse comigo, contando os pingos que caem, contínuos, sobre o balde debaixo da goteira da sala. É que se eu fosse um desejo, eu seria você aqui, só para me inundar de felicidade.

Se eu ainda quero você depois do nosso temporal? No fim das contas, devo ser mesmo um cara estranho.

 

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