a entregadora de jornais

Ela era uma senhora esquelética e andava encurvando as costas, como se fizesse um grande esforço para ajustar naquele corpo pequeno o mundo que guardava dentro de si. Nos conhecemos em uma parada de ônibus no Eixo Monumental, na altura da Praça do Cruzeiro. Não sei, até hoje, o seu nome. Mas lembro bem de suas histórias. E de sua alegria. Embora faltasse em seu sorriso um par de dentes, ela ria um riso franco e, talvez, melancólico. A gente só de olhar podia saber que sua existência era perpassada por sofrimento. Ainda assim, ela dava conta de suportar a amargura da falta, da fome, da privação. Da cidade.

Essas mulheres que vão pelas ruas,
entre o concreto, são inspiração.
São resistência pura.

Ela entregava jornais em um sinal ali pela vizinhança. Naquele dia, eu estava sem carro. Fui até a parada, na expectativa de pegar um coletivo no sentido L2 sul, mas ele teimava em não passar. Tal qual o veículo que entregava o jornal a ela, que insistia em não chegar. Estava um trânsito intenso. Sentamos lado a lado no gelado banco de espera e, sem demora, nos pusemos a conversar. Ela me contou que criou, com dificuldade, uma penca de filhos. Agora ajuda a cuidar de netas e netos.

Suas mãos eram finas, seus dedos compridos e as rugas denunciavam a idade e também o excesso de sol. Ela me disse que estava bem, feliz até. A vida já fora muito mais difícil. Houve uma época em que ela não tinha o que dar de comer às crianças. Era sozinha. O marido? Não sei. É tão comum a gente não saber, não é mesmo? Em certas ocasiões, ela recorreu ao lixo. As comidas e roupas e restos que não serviam mais aos moradores de condomínios fechados e de prédios separados da realidade por suas entradas imponentes e seus porteiros explorados, acabou por encher a barriga não só dela, mas também dos filhos. Minto. Não dá para dizer que enchia. Acho que forrava de leve, só para despistar a miséria.

O inesquecível do nosso encontro, porém, foi a confissão que ela me fez, quase às escondidas, mas sem deixar de se divertir ao relatar a travessura da qual os netos eram cúmplices. Antes, não era possível fazer uma coisa dessas. Mas agora as obrigações são menores e, portanto, as preocupações também. Até sobra um dinheirinho. E, quando sobra, ela não tem dúvidas: vai até o Conic, seleciona sacos de balas, das mais baratinhas, e um punhado de chocolates e leva para casa, para dividir com os netos. Os filhos não podem saber que eles se lambuzam de guloseimas. Então ela preserva só consigo e com os pequenos essa sensação tão estranha ao seu cotidiano, que lembra cócegas com uma mistura de palpitação no peito. Vocês sabem, essa tal de felicidade.

Deve fazer um ano que nos esbarramos. Nas semanas seguintes àquele dia, da janela do carro, eu sempre esticava o pescoço para os lados da parada, em um esforço vão de localizá-la. Para ser sincera, ainda consegui vê-la mais uma vez, mas de muito longe, e a distância não me permitiu qualquer contato. Depois, segui a rotina de agilidade e solidão e vi os meses deslizarem. Cruzei por ali repetidas vezes, sempre do conforto do automóvel, que, ao contrário do ônibus, é tão pouco entrosado à coletividade. Isso nos impede de ver tantos mundos. De dentro do carro, a gente só vê mais carros, trânsito e vazio. Para enxergar vida, tem que ir mais devagar, pela calçada.

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